Nada como
um irlandês a relatar as misérias da sua infãncia para fazer qualquer outro tipo de um qualquer outro ponto do mundo ocidental sorrir ou rir-se mesmo de forma desbragada.
O grande trunfo deste livro memorável, talvez o melhor que li em toda a década de 90, está na forma sincera como a tristeja, a sujidade e a desgraça são contadas, ao ponto de certas passagens, sem efeitos estilísticos para o conseguir, se tornarem memoráveis momentos de humor.
Claro que
pelo colorido das descriçôes, pelo tom que lhes é impresso por
uma linguagem colhida directamente no quotidiano, com todas as suas inflexões e atropelos gramaticais, esta é obra para ser lida no original.
A tradução portuguesa (como por certo outras por esse mundo), demasiado limpinha e a procurar mais a fidelidade do sentido das frases do que o seu espírito ou a sua entoação, é um pálido reflexo do original.
E para provar que a miséria por vezes pode ser uma verdadeira musa e a pobreza conter um potencial estranho de alegria, o livro só perde ritmo e encanto nos capítulos finais quando o autor chega à mítica América e a vida lhe começa a sorrir.
E o mesmo acontece na algo falhada continuação destas memórias de seu título
'Tis, em que a matéria-prima já não é a mesma, restando apenas um documento interessante de vida, mas mais nada.
Mas enquanto McCourt descreve as agruras de uma infância terrível, atravessada pela fome, pelo desgosto e pela morte, com o olhar cândido de uma criança, sentimo-nos algo culpados pelo prazer que vamos tendo na leitura.
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