Obra de culto da ficção científica delirante e hilariante, este falso Guia dá a aparência, de igual modo falsa, de ser um escrito fácil, redigido sem trabalho literário de maior, o que está longe de ser verdadeiro, se conhecermos bem o seu modo de produção e de posterior desenvolvimento e adaptação a outros meios, como a rádio e, apenas de forma póstuma, ao cinema.
Mas é na sua forma
original, de pequeno livro cintilante de absurdo que instila maior prazer nos leitores que, à época, se interrogariam quando os Monty Python enveredariam pela ficção científica ou quando Woody Allen voltaria a fazer algo como O Herói do Ano 2000 ( Sleeper , no original).
Artur Dent com a sua inseparável toalha, qual Linus, o bicéfalo Zaphod Beeblebrox e especialmente o deprimido e incompreendido robot Marvin, são figuras inesquecíveis de um imaginário que procura cuidadosamente não ter sentido nem lógica, mas apenas divertir-nos e deleitar-nos com a sua capacidade inventiva e a sua desconstrução dos lugares-comuns do género, não nos preocupando minimamente que a Terra seja rapidamente destruída no processo, para facilitar as comunicações na Galáxia, ou que descubramos que o nosso planeta não passa de
uma maquineta vagamente complexa, concebida para obter uma resposta abstrusa a uma questão imemorial.
Quando chegamos ao "fim", ficamos a caminho do Restaurante no Fim do Universo, a segunda parte da trilogia em cinco volumes, como o próprio autor reconhece.
E acreditem, têm toda a vantagem em ler o livro, podendo esquecer alegremente o recente filme que apenas prova que as boas adaptações cinematográficas de bons livros de ficção científica tiveram o último grande exemplo com o Blade Runner de Ridley Scott ou que então só são possíveis com obras do Philip K. Dick.
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