No cinema, como actor, Steve Martin sempre pareceu ser capaz de mais e melhor do que muito do que foi fazendo ao longo da sua carreira, muito irregular.
Mas, em outra áreas, como o teatro e a literatura, talvez por ter maior autonomia, o nível de qualidade do
seu trabalho é bem mais regular e muito acima da média.
Se o volume Pure Drivel ( Puro Disparate na edição portuguesa) é uma colectânea de textos que exploram vários tipos de comédia absurda, na linhagem dos textos de Woody Allen de final dos anos 60 e anos 70, e se a sua novela Shopgirl ainda apresenta
um modelo facilmente reconhecível, a mais recente The Pleasure of my Company é um exercício que retrata o estranho quotidiano de um indivíduo com uma profundas disfunções psicológicas e um comportamento obsessivo compulsivo que o obriga a seguir rotinas rigídas na sua vida diária e especialmente na sua forma de se deslocar fora de casa, a qual implica formas específicas de atravessar as ruas e de fazer curvas, de se vestir e de manter a luminosidade no seu apartamento.
Remetido a um perímetro muito restrito nas suas movimentações é especialmente trácico-cómica a parte em que, tendo ganho um prémio literário local, necessita de se deslocar fora dos seus domínios para o receber e falar em público.
Steve Martin não resiste e conceber para o seu peculiar herói (Daniel Pecan Cambridge, génio esquizofrénico de idade moldável à sua disposição diária) um final feliz tão improvável quanto toda a narrativa anterior.
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