Da desflorestação à escultura de arbustos, o Homem tem uma longa história de alteração do seu ambiente. Contudo, de acordo com cientistas da Universidade do Estado do Arizona (ASU), o ambiente pode também alterar o Homem.
Num projecto de vários anos entitulado “A experiência paisagística da vila do deserto norte”, investigadores transformaram 24 unidades habitacionais familiares idênticas, situadas no Campus da Universidade do Estado do Arizona no deserto Sonoran, criando 5 mini bairros, cada com um tipo de paisagem diferente.
Este projecto multidisciplinar, que vai da Sociologia à Ecologia, permite aos cientistas observar como o comportamento e as atitudes humanas variam em resposta a diferentes características do ambiente. “Nós pensamos em como o Homem transforma constantemente o ambiente, seja a construir novas casas ou abatendo árvores nas florestas tropicais”, disse o sociólogo Scott Yabiku da ASU, um dos principais investigadores do projecto que teve início em 2004. “Contudo, se sujeitarmos os indivíduos a diferentes tipos de paisagens, poderá a forma como vêem o seu ambiente mudar?” As novas paisagens pretenderamm representar as típicas de Phoenix, na região do Arizona, segundo Yabiku. Por exemplo a paisagem “xérica” contém plantas que utilizam pouca água, vegetação rasteira e sistemas de irrigação gota-a-gota; enquanto que a paisagem “mésica” é composta por árvores de folha larga que requerem irrigação por inundação. Uma região vizinha é utilizada como controlo experimental, mantendo-se inalterada, contendo plantas nativas do deserto.
Após a criação das paisagens em 2004, os sociólogos realizaram questionários preliminares, pedindo aos residentes que classificassem fotografias de cada tipo de paisagem numa escala de 1 a 4. Observaram que havia uma clara preferência pelas paisagens mais verdes. Os resultados revelaram também uma forte correlação com o género: tendo as mulheres classificado pior do que os homens as paisagens xéricas e desérticas.
Os investigadores colocaram a hipótese de estas diferenças de género se deverem às diferentes tarefas assumidas por homens e mulheres, nomeadamente no que diz respeito à vigilância de crianças e à manutenção de espaços exteriores. Segundo Yabiku, os investigadores esperaram que as classificações obtidas na fase preliminar fossem alteradas durante o decorrer da experiência. “Nós esperamos que haja uma apreciação diferente das paisagens uma vez que as pessoas vivam nelas”, disse Yabiku. “Portanto, esperamos que as classificações do deserto e das paisagens xéricas melhorem ao longo do tempo”. Também suspeitaram que as preferências estariam ligadas a factores como o facto de um indivíduo reciclar, ou o seu interesse sobre identificação de aves e plantas, bem como as suas atitudes em relação ao uso de água.
As primeiras hipóteses testadas consistiram em avaliar se o conhecimento ecológico é mais elevado em indivíduos que preferem paisagens nativas e se nas paisagens mais luxuriantes decorrem mais actividades recreativas. Os investigadores também analisaram de que forma os factores ecológicos , incluindo o microclima e a diversidade de mamíferos, são afectados pelas alterações na paisagem. Apesar de nem todos os resultados terem já sido obtidos, foi já observado pelos ecologistas um aumento da temperatura do solo durante a noite em paisagens com menos vegetação. Isto apoia a ideia de que rodeando uma habitação com vegetação poderá levar a climas mais frescos, segundo o Chris Martin, biólogo da ASU. O estudo, que continuará pelo menos até 2010, é uma investigação inédita acerca dos interesses sociais e ecológicos das pessoas, que poderão por vezes entrar em conflito, disse Scott Collins, um biólogo da Universidade do Novo México que não está envolvido no projecto. “Aos pais não agrada a ideia de os seus filhos correrem de encontro aos espinhos dos cactos do seu jardim”, disse Collins. “Portanto existem contrastes interessantes entre as necessidades sociais ou comportamentais e os interesses ecológicos.”